30/09/2026
Saúde mental é mais do que ausência de sintomas: o papel do senso de agência

Saúde mental e bem-estar não significam apenas ausência de ansiedade, depressão ou outros sintomas psiquiátricos. Embora reduzir o sofrimento seja uma parte fundamental do tratamento, melhorar clinicamente não significa necessariamente que a pessoa tenha recuperado autonomia, relacionamentos, propósito e capacidade de construir projetos para o futuro.
Em um editorial publicado em 2026 na revista World Psychiatry, o psicólogo Martin Seligman propõe ampliar essa discussão por meio de um conceito chamado senso de agência: a percepção de que nossas ações podem influenciar os rumos da nossa vida.
O que é senso de agência na saúde mental?
Senso de agência pode ser entendido como a percepção de que “eu posso realizar meus objetivos”.
Significa conseguir perceber que, mesmo diante de limitações e circunstâncias que não escolhemos, algumas decisões, comportamentos e caminhos continuam disponíveis.
Para Seligman, essa capacidade envolve três elementos principais:
Eficácia: perceber que nossas ações podem nos aproximar dos objetivos desejados.
Otimismo: conseguir imaginar que determinada situação pode melhorar e que dificuldades são temporárias. Isso é um combustível para a persistência.
Imaginação: ser capaz de visualizar diferentes possibilidades para o futuro.
Esses três componentes ajudam a explicar algo importante na saúde mental: quando uma pessoa deixa de enxergar alternativas, também pode diminuir sua disposição para agir.
Do desamparo aprendido à possibilidade de mudança
O conceito de agência tem relação histórica com os estudos sobre desamparo aprendido.
Pesquisas iniciadas décadas atrás mostraram que experiências repetidas de falta de controle sobre eventos negativos podem levar a um estado de passividade no qual o indivíduo passa a tentar menos — inclusive posteriormente, quando alguma possibilidade de mudança já existe.
Não olhar apenas para o passado
Outro ponto interessante apresentado por Seligman é o conceito de prospecção: a capacidade humana de imaginar futuros possíveis.
A psicologia e a psiquiatria tradicionalmente procuram compreender como experiências passadas influenciam aquilo que sentimos, pensamos e fazemos hoje.
Isso continua sendo importante.
Mas também somos influenciados pelo futuro que conseguimos imaginar.
Quando alguém acredita que não existe alternativa possível, seu comportamento tende a ser diferente daquele de uma pessoa que consegue visualizar alguns caminhos — ainda que nenhum deles seja fácil.
Por que a ausência de sintomas não significa recuperação completa?
Essa discussão leva a uma concepção mais ampla de tratamento.
Imagine uma pessoa que passou por um episódio depressivo grave. Depois do tratamento, ela já dorme melhor, voltou a se alimentar adequadamente e não apresenta mais a tristeza intensa e persistente que tinha anteriormente.
Clinicamente, houve uma melhora importante.
Mas ainda podemos perguntar:
Ela voltou a se interessar pelas coisas?
Conseguiu reconstruir seus relacionamentos?
Tem projetos?
Enxerga algum sentido e significado no que faz?
Consegue imaginar um futuro que valha a pena construir?
Essas perguntas não substituem a avaliação dos sintomas. Elas a complementam.
Seligman utiliza o modelo PERMA para descrever diferentes dimensões do bem-estar: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, significado e realização.
O que isso muda na prática?
Um bom tratamento em saúde mental pode, portanto, envolver dois movimentos complementares:
Aliviar aquilo que está fazendo a pessoa sofrer e ajudá-la a recuperar a capacidade de conduzir a própria vida.
O objetivo não é transformar sofrimento em pensamento positivo nem sugerir que todas as dificuldades dependem apenas da vontade individual.
É algo mais realista:
Depois de aliviar os sintomas, ajudar a aumentar o senso de agência e perceber novamente que existem escolhas, possibilidades e caminhos que podem ser construídos.
Referência
Seligman MEP. Agency and well-being. World Psychiatry. 2026;25(2):165-166. doi:10.1002/wps.70041.
Dr. Gustavo Takarada
Médico psiquiatra · CRM-PR 28.544 · RQE 22.818