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07/09/2026

TDAH e funções executivas: O que Russell Barkley explica

Qual é a relação entre TDAH e funções executivas? O trabalho de Russell Barkley ajuda a compreender por que as dificuldades podem ir além da atenção e envolver a organização do cotidiano.

TDAH e funções executivas: além da falta de atenção

Qual é a relação entre TDAH e funções executivas? O trabalho de Russell Barkley ajuda a compreender por que as dificuldades podem ir além da atenção e envolver a organização do cotidiano.

Quando se fala em TDAH em adultos, é comum pensar em distração, dificuldade de concentração ou hiperatividade. Esses sintomas são importantes, mas não explicam completamente as dificuldades que algumas pessoas apresentam no cotidiano.

O psicólogo e pesquisador Russell A. Barkley, um dos autores mais influentes no estudo do TDAH, propôs compreender o transtorno também a partir de dificuldades relacionadas à autorregulação e às funções executivas — capacidades que ajudam a orientar o comportamento em direção a objetivos futuros.

Essa perspectiva ajuda a entender por que o TDAH pode interferir não apenas na atenção, mas também na organização, no controle dos impulsos, no manejo do tempo e na capacidade de transformar uma intenção em ação.

O que são funções executivas?

Funções executivas são processos mentais envolvidos na capacidade de organizar e direcionar o próprio comportamento. Elas participam de tarefas como:

  • pensar antes de agir;
  • manter informações em mente enquanto realizamos uma atividade;
  • organizar etapas para atingir um objetivo;
  • considerar consequências futuras;
  • regular emoções e motivação;
  • persistir em tarefas pouco estimulantes;
  • acompanhar o próprio desempenho e fazer ajustes.

No modelo de Barkley, dificuldades de inibição e autorregulação podem repercutir sobre diferentes funções executivas, incluindo memória de trabalho, fala internalizada, regulação do afeto e da motivação e planejamento.

Saber o que fazer não significa necessariamente conseguir fazer

Essa distinção é particularmente útil para compreender o TDAH na vida adulta.

Uma pessoa pode saber que precisa começar um relatório, estudar, pagar uma conta ou sair de casa em determinado horário. Mesmo assim, pode procrastinar, perder a noção do tempo, desviar-se para outra atividade ou começar somente quando a consequência se torna iminente.

Por isso, algumas dificuldades associadas ao TDAH aparecem na capacidade de organizar e sustentar comportamentos direcionados a objetivos, e não simplesmente na capacidade de prestar atenção. Barkley situa o transtorno dentro de um modelo mais amplo de prejuízo da autorregulação.

Por que o futuro pode ter dificuldade para orientar o presente?

Grande parte das nossas escolhas depende de considerar consequências futuras.

Imagine uma tarefa que precisa ser entregue daqui a duas semanas. Embora importante, naquele momento não existe uma consequência imediata por adiá-la. Uma atividade mais interessante ou uma recompensa disponível agora pode exercer maior influência sobre o comportamento.

Na prática, isso pode aparecer como:

“Eu sabia que precisava fazer, mas fui deixando.”

Quando o prazo se aproxima, a urgência pode facilitar a mobilização para realizar aquilo que vinha sendo adiado.

O problema, portanto, nem sempre é desconhecer a importância da tarefa.

TDAH e manejo do tempo

Alguns adultos podem subestimar quanto tempo uma atividade levará, começar a se preparar tarde demais, esquecer compromissos ou perceber que passaram muito mais tempo do que imaginavam em determinada atividade.

Isso também ajuda a compreender uma situação aparentemente contraditória: alguém pode permanecer intensamente concentrado em uma atividade interessante e, ao mesmo tempo, encontrar grande dificuldade para iniciar outra tarefa importante, porém monótona.

O problema não é simplesmente possuir ou não possuir atenção. A capacidade de regulá-la de acordo com as demandas e objetivos também importa.

Problemas de gerenciamento do tempo estão entre as dificuldades executivas discutidas na literatura clínica sobre TDAH adulto.

O ambiente pode fazer diferença

Estrutura externa pode ajudar a compensar algumas dificuldades de autorregulação.

Calendários, alarmes, lembretes, listas, divisão de tarefas maiores em etapas menores, prazos intermediários e redução de distrações podem tornar informações importantes mais disponíveis no momento em que uma ação precisa acontecer.

Isso também ajuda a explicar por que algumas pessoas funcionam relativamente bem em ambientes estruturados, mas apresentam mais dificuldades quando aumenta a necessidade de administrar sozinhas horários, prioridades e responsabilidades.

E as emoções?

A autorregulação emocional também ocupa um lugar importante na concepção de Barkley sobre o TDAH.

Isso não significa que qualquer dificuldade emocional seja causada pelo transtorno. Significa que, em algumas pessoas, dificuldades de inibição e autorregulação podem contribuir para respostas emocionais mais rápidas ou maior dificuldade para modular uma reação antes de agir.

A regulação do afeto, da motivação e do nível de ativação integra o modelo de funções executivas descrito por Barkley.

TDAH não é falta de inteligência

Uma pessoa com TDAH pode compreender perfeitamente uma situação, possuir boa capacidade intelectual e saber quais estratégias deveria utilizar.

A dificuldade pode estar justamente na aplicação consistente desse conhecimento no cotidiano.

Por isso, orientações como “é só se organizar” ou “é só criar uma rotina” podem simplificar um problema mais complexo.

Nem toda dificuldade de função executiva é TDAH

Esse ponto é fundamental.

Dificuldades de concentração, memória, organização e produtividade podem ocorrer em diferentes situações, incluindo ansiedade, depressão, privação de sono, estresse, uso de substâncias e outras condições clínicas ou psiquiátricas.

Além disso, pessoas sem qualquer transtorno também podem apresentar essas dificuldades ocasionalmente.

No TDAH, é necessário considerar o conjunto dos sintomas, sua persistência, a história do desenvolvimento e o prejuízo produzido em diferentes áreas da vida. Por isso, um questionário ou teste isolado não estabelece o diagnóstico.

O questionário de TDAH em adultos ASRS-18 pode ajudar a organizar o relato de sintomas para uma avaliação profissional, mas não substitui a consulta nem confirma o diagnóstico.

O que essa maneira de compreender o TDAH muda?

Em vez de perguntar apenas:

“Essa pessoa consegue prestar atenção?”

pode ser mais útil investigar:

“Ela consegue regular sua atenção, comportamento e esforço de acordo com aquilo que precisa fazer e com seus objetivos?”

Essa perspectiva ajuda a compreender por que o TDAH pode repercutir nos estudos, trabalho, relacionamentos, finanças, organização da rotina e autocuidado. O trabalho de Barkley sobre TDAH adulto aborda justamente prejuízos em diversas áreas do funcionamento cotidiano.

O tratamento, portanto, não se resume a “melhorar a concentração”. Conforme as necessidades de cada pessoa, pode envolver intervenções direcionadas aos sintomas e estratégias para organização, planejamento, manejo do tempo e outras dificuldades funcionais.

Quando procurar uma avaliação?

Se dificuldades persistentes de atenção, organização, procrastinação, manejo do tempo ou impulsividade têm interferido no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou na vida cotidiana, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo.

Dr. Gustavo Takarada
Médico Psiquiatra
CRM-PR 28.544 | RQE 22.818

Nota: conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica individual.