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07/09/2026

Por que evitar o que causa ansiedade pode fazer a ansiedade aumentar?

Evitação e ansiedade pode gerar um ciclo difícil de perceber. Quando alguma situação provoca ansiedade, afastar-se dela costuma trazer alívio.

Cancelar um compromisso, evitar dirigir, não falar em uma reunião, sair rapidamente de um lugar ou pedir que outra pessoa faça algo difícil pode reduzir o desconforto naquele momento.

Por isso, evitar parece funcionar.

O problema é que o alívio imediato nem sempre significa melhora da ansiedade no longo prazo.

Pesquisas sobre aprendizagem do medo e tratamento dos transtornos de ansiedade, incluindo o trabalho da psicóloga e pesquisadora Michelle G. Craske, ajudam a compreender por que enfrentar gradualmente determinadas situações pode produzir um aprendizado diferente daquele proporcionado pela evitação.

Como funciona o ciclo de evitação e ansiedade?

Imagine alguém que sente ansiedade intensa ao dirigir em uma rodovia.

Na primeira oportunidade, decide evitar a rodovia e utilizar apenas trajetos conhecidos. A ansiedade diminui rapidamente.

O cérebro pode aprender algo parecido com:

“Eu me senti seguro porque evitei aquela situação.”

Na próxima oportunidade, a vontade de evitar tende a aparecer novamente.

Com o tempo, algumas pessoas passam a organizar partes cada vez maiores da rotina ao redor daquilo que temem.

Um ciclo possível é:

Situação temida → ansiedade → evitação → alívio imediato → manutenção do medo

A evitação não é sinal de fraqueza. É uma resposta compreensível diante de algo percebido como ameaçador. Mas, quando se torna a principal estratégia para lidar com a ansiedade, pode impedir novas experiências capazes de modificar aquilo que a pessoa espera que aconteça.

O objetivo não é simplesmente “perder o medo”

Durante muito tempo, uma maneira intuitiva de pensar sobre exposição era imaginar que a pessoa deveria permanecer diante da situação temida até que sua ansiedade diminuísse.

O trabalho de Craske e colaboradores ajudou a desenvolver outra perspectiva.

A redução da ansiedade durante uma exposição não é necessariamente o melhor indicador de que ocorreu uma aprendizagem duradoura. Em vez de apenas tentar fazer o medo desaparecer, a exposição pode proporcionar oportunidades para construir novas aprendizagens.

Isso muda uma pergunta importante.

Em vez de apenas:

“Minha ansiedade diminuiu?”

pode ser mais útil investigar:

“O que eu esperava que acontecesse e o que realmente aconteceu?”

O cérebro pode aprender algo novo

Considere alguém com ansiedade social que pensa:

“Se eu falar durante a reunião e ficar nervoso, todos perceberão e será constrangedor.”

Evitar falar impede que essa previsão seja testada.

Uma experiência planejada de exposição pode permitir observar o que realmente acontece.

Talvez a pessoa fique ansiosa. Talvez sua voz oscile. Mas o desfecho temido pode não ocorrer da maneira prevista — ou ela pode descobrir que consegue lidar melhor com a situação do que imaginava.

Essa diferença entre o que se esperava que acontecesse e o que de fato aconteceu é chamada de violação de expectativa e ocupa papel importante no modelo de aprendizagem inibitória desenvolvido por Craske e colaboradores.

Isso significa que o medo antigo é apagado?

Não necessariamente.

Uma das ideias importantes desse modelo é que a exposição não precisa eliminar completamente a associação anterior de ameaça.

Em vez disso, pode ocorrer uma nova aprendizagem, capaz de competir com aquilo que já havia sido aprendido.

De forma simplificada, em vez de:

“Isso é perigoso e preciso evitar.”

a pessoa pode desenvolver novas experiências:

“Posso sentir ansiedade e permanecer nessa situação.”

“Aquilo que eu temia nem sempre acontece.”

“Mesmo quando sinto desconforto, consigo lidar com ele.”

Esse modelo ajuda também a compreender por que o medo pode reaparecer em determinadas circunstâncias mesmo depois de uma melhora: novas aprendizagens precisam ser recuperadas e generalizadas para diferentes contextos. Trabalhos posteriores de Craske e colaboradores aprofundaram justamente essa perspectiva de aprendizagem e recuperação inibitória.

Os “comportamentos de segurança” também importam

Nem sempre a pessoa evita completamente uma situação.

Às vezes ela permanece, mas apenas porque utiliza estratégias que acredita serem indispensáveis para impedir uma consequência negativa.

Por exemplo:

  • falar em público somente olhando para uma pessoa conhecida;
  • permanecer em determinado lugar apenas se estiver acompanhado;
  • sentar sempre próximo à saída;
  • verificar repetidamente sinais do próprio corpo;
  • carregar algum objeto exclusivamente porque acredita que não conseguiria enfrentar a situação sem ele.

Esses comportamentos precisam ser compreendidos individualmente. Em alguns casos, porém, podem dificultar a aprendizagem de que a situação poderia ser enfrentada mesmo sem aquela estratégia de proteção. A remoção de sinais e comportamentos de segurança é uma das estratégias consideradas no modelo de exposição baseado em aprendizagem inibitória.

Exposição não significa enfrentar tudo de uma vez

Compreender o papel da evitação não significa que uma pessoa deva simplesmente se obrigar a enfrentar seus maiores medos.

Exposição terapêutica é uma intervenção planejada.

A situação precisa ser compreendida dentro do problema apresentado, dos objetivos do tratamento e das características de cada pessoa. Dependendo do transtorno, diferentes estratégias podem ser utilizadas.

Além disso, nem todo medo deve ser enfrentado: algumas situações representam riscos reais e a ansiedade pode exercer uma função protetora.

O objetivo não é ensinar alguém a ignorar riscos, mas ajudar a diferenciar melhor ameaça real de ameaça antecipada.

Por que variar as situações pode ser importante?

Outra contribuição do modelo é considerar que a aprendizagem pode ser fortalecida quando ocorre em diferentes situações e contextos.

Uma pessoa que consegue enfrentar determinada situação apenas no consultório ou em circunstâncias muito específicas pode ter dificuldade quando encontra o mesmo medo em outro ambiente.

Por isso, estratégias propostas por Craske e colaboradores incluem variar estímulos e contextos, trabalhar expectativas e favorecer a recuperação das novas aprendizagens posteriormente.

O que isso nos ensina sobre ansiedade?

Talvez uma das ideias mais úteis seja esta:

sentir ansiedade durante uma experiência não significa necessariamente que aquela experiência esteja dando errado.

O objetivo do tratamento não precisa ser eliminar qualquer sensação de ansiedade.

Em determinadas situações, uma mudança mais importante pode acontecer quando a pessoa percebe que consegue agir apesar da ansiedade, testar previsões e aprender novas maneiras de responder àquilo que anteriormente evitava.

Quando procurar ajuda?

Algum grau de ansiedade faz parte da vida.

Uma avaliação profissional pode ser útil quando ansiedade, preocupação ou medo começam a produzir sofrimento significativo ou levam a evitar repetidamente situações importantes — trabalho, estudos, relacionamentos, viagens, atividades sociais ou outras experiências do cotidiano.

O primeiro passo é compreender melhor os sintomas e os diferentes transtornos de ansiedade, quais fatores estão mantendo os sintomas e qual abordagem de tratamento é mais adequada para aquela pessoa.

Dr. Gustavo Takarada
Médico Psiquiatra
CRM-PR 28.544 | RQE 22.818

Nota: conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica individual.